Por muito tempo, comprei o pacote completo da hipocrisia: Deus, pátria e família. Hoje, olhando para trás, percebo que algumas das pessoas mais hipócritas que conheci estavam justamente nesse departamento de perfeição moral. Uma espécie de condomínio fechado da virtude, onde todo mundo se considera cidadão de bem, desde que o problema social aconteça longe do próprio portão.
É curioso como algumas pessoas ascendem socialmente e, junto com o poder aquisitivo, desenvolvem uma amnésia seletiva sobre a própria origem. Conseguem pagar um plano de saúde, mas perdem a capacidade de compreender por que alguém precisa do SUS. Defendem a família com fervor, desde que seja a própria. E falam tanto em Deus que, às vezes, fico imaginando se Jesus também precisaria passar por uma análise de crédito para ser acolhido.
O Brasil tem cerca de 213 milhões de habitantes e uma desigualdade social histórica. Mas, aparentemente, o grande problema nacional é o pobre que precisa de assistência, o trabalhador que reivindica direitos e qualquer pessoa que ouse questionar os privilégios de quem já chegou lá.
E a política é um espetáculo à parte. Elegemos representantes que transformam costumes alheios em pauta nacional, enquanto problemas concretos continuam exigindo soluções. O TSE mantém bases públicas com informações sobre candidaturas e propostas de governo, mas parece que, para muita gente, a avaliação política se resume a descobrir quem odeia as mesmas pessoas que ela. Plano de governo? A gente vê depois. O importante é combater o inimigo imaginário com a Bíblia debaixo do braço.
Fico genuinamente feliz quando alguém melhora de vida. O problema começa quando a pessoa confunde ascensão econômica com superioridade moral e passa a olhar para quem ficou para trás como se a pobreza fosse um defeito de caráter, e não também resultado de condições sociais desiguais.
No fim, talvez a maior ficção dessa gente seja acreditar que existe uma identidade perfeita, uma família perfeita, uma moral universal pronta e um grupo de pessoas autorizado a decidir quem merece dignidade.
A ironia é que, em nome de Deus, pátria e família, muita gente consegue cultivar justamente o contrário: egoísmo, ressentimento e desprezo pelo próximo.
E eu, que por muito tempo acreditei nesse discurso, hoje tenho uma dúvida sincera: será que essas pessoas defendem tanto a moral porque são virtuosas ou porque precisam desesperadamente acreditar que são melhores do que alguém?
Porque, convenhamos, se a sua fé não produz solidariedade, se o seu sucesso apaga a memória de onde você veio e se a sua moral depende de quem está sendo julgado, talvez o problema não seja a falta de Deus no mundo.
Talvez seja o excesso de gente querendo ocupar o lugar dele.
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