Por muito tempo, comprei o pacote completo da hipocrisia: Deus, pátria e família. Hoje, olhando para trás, percebo que algumas das pessoas mais hipócritas que conheci estavam justamente nesse departamento de perfeição moral. Uma espécie de condomínio fechado da virtude, onde todo mundo se considera cidadão de bem, desde que o problema social aconteça longe do próprio portão. É curioso como algumas pessoas ascendem socialmente e, junto com o poder aquisitivo, desenvolvem uma amnésia seletiva sobre a própria origem. Conseguem pagar um plano de saúde, mas perdem a capacidade de compreender por que alguém precisa do SUS. Defendem a família com fervor, desde que seja a própria. E falam tanto em Deus que, às vezes, fico imaginando se Jesus também precisaria passar por uma análise de crédito para ser acolhido. O Brasil tem cerca de 213 milhões de habitantes e uma desigualdade social histórica. Mas, aparentemente, o grande problema nacional é o pobre que precisa de assistência, o trabalhador q...
Se o fascismo clássico, descrito por Benito Mussolini , foi a glorificação explícita do Estado total e da violência como virtude, a potência contemporânea opera de modo mais sofisticado. Não precisa marchar uniformizada nas ruas; basta organizar o mundo ao redor de si. Os Estados Unidos não se apresentam como tirania. Apresentam-se como liberdade. E talvez seja aí que a ironia comece. A soberba se veste de excepcionalismo. A ideia de que existe uma missão histórica a cumprir, quase providencial. O discurso do “líder do mundo livre” ecoa como verdade autoevidente. Para Max Weber , todo poder busca legitimidade. No caso americano, a legitimidade se ancora na moralização da própria hegemonia. Não é dominação; é responsabilidade global. Não é imposição; é proteção. A avareza encontra morada no capitalismo financeiro elevado à categoria de destino histórico. Karl Marx já advertia que o capital não reconhece fronteiras morais, apenas expansivas. Quando o dólar dita o ritmo das e...