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A pressão da escolha acadêmica e profissional na sociedade contemporânea: reflexões sobre o sucesso, o empreendedorismo e o ensino tradicional


    Nos últimos anos, a pressão para escolher uma formação acadêmica e uma carreira tem aumentado significativamente, especialmente com a ascensão de novos discursos sobre sucesso e profissão.
A proliferação de coaches e influenciadores digitais, que associam a ideia de realização pessoal e profissional ao empreendedorismo, adiciona uma camada extra de ansiedade, principalmente para os jovens que tentam decifrar o que esperam do futuro. Em meio a essas pressões, é interessante recorrer a pensadores que, de diferentes maneiras, ajudaram a entender o que está em jogo nessa escolha e como a sociedade enxerga o sucesso.

    Por um lado, a valorização do empreendedorismo, amplificada pelos coaches, se conecta com o que o filósofo Zygmunt Bauman chamou de modernidade líquida. Bauman argumenta que, na sociedade contemporânea, as relações, os empregos e até as certezas existenciais se tornam volúveis e passageiras, como "líquidas". Nesse contexto, a ênfase no empreendedorismo se torna uma tentativa de adaptação a essa instabilidade. Para Bauman, a busca por segurança e estabilidade no mercado de trabalho tradicional já não faz mais sentido, pois as estruturas estão constantemente mudando. O empreendedorismo, então, aparece como uma forma de liberdade e autonomia, uma tentativa de escapar dessa fluidez e criar uma identidade própria em um mundo sem muitas garantias.

    Por outro lado, pensadores como Pierre Bourdieu nos lembram da importância do capital cultural e simbólico nas escolhas profissionais. Bourdieu, em sua teoria sobre campos e habitus, argumenta que o acesso à educação e a escolha de uma profissão não são apenas questões individuais, mas sociais e estruturais. Em sua visão, as escolhas acadêmicas e profissionais são muitas vezes moldadas por condições sociais, como classe, origem e até mesmo a "cultura" familiar. Ou seja, enquanto alguns podem ser encorajados a seguir o caminho do empreendedorismo por um discurso que prega o sucesso individual e a liberdade financeira, outros são mais inclinados a seguir trajetórias acadêmicas tradicionais, como medicina ou direito, justamente porque essas áreas ainda estão associadas ao prestígio social e ao capital cultural acumulado ao longo de gerações.

    Essa dicotomia entre o empreendedorismo e a formação acadêmica tradicional se intensifica quando levamos em conta o pensamento de Immanuel Kant, que via a educação como um meio para a autonomia intelectual e moral. Kant acreditava que a educação deveria ser o processo pelo qual os indivíduos alcançam sua maioridade, ou seja, a capacidade de pensar por si mesmos, sem se deixar influenciar por autoridades externas. Em um cenário contemporâneo, em que somos constantemente bombardeados por discursos sobre o sucesso e as expectativas do mercado, a ideia de Kant sobre a educação se torna um convite para a reflexão: a educação deveria, então, ser mais do que apenas um meio para um emprego ou lucro financeiro.  Ela deveria, também, ser um espaço para desenvolver uma compreensão crítica do mundo e das próprias escolhas. Assim, a pressão para escolher uma carreira, seja ela empreendedora ou acadêmica, pode ser vista como uma distorção dessa ideia de autonomia, em que as escolhas se tornam mais sobre atender expectativas externas do que sobre um processo reflexivo e autodeterminado.

    No campo contemporâneo, ainda podemos recorrer a pensadores como Guy Standing, que em seu livro A Precariedade do Trabalho (2011), aponta como o mercado de trabalho está se transformando. Ele argumenta que, com o avanço da automação e da globalização, muitas das antigas certezas sobre empregos estáveis desapareceram, e o que temos é uma "classe precária" que vive em constante insegurança. Isso, para Standing, muda a forma como os jovens hoje se relacionam com a ideia de trabalho e carreira. O conceito de "segurança no emprego" já não é mais a principal preocupação, e as novas gerações, ao lidarem com essa realidade, acabam sendo atraídas pelo discurso do empreendedorismo, que promete uma forma de controle sobre suas próprias vidas profissionais, ainda que o risco seja alto e a estabilidade escassa.

    Por fim, a tensão entre as diferentes formas de escolha profissional, seja no âmbito acadêmico ou empreendedor, reflete uma crise mais ampla de valores na sociedade contemporânea. Vivemos em uma época em que o "sucesso" muitas vezes é medido pela quantidade de dinheiro e reconhecimento imediato que uma pessoa consegue alcançar. Isso, como nos lembra Byung-Chul Han, está relacionado com a cultura do performance, onde todos se sentem pressionados a estarem sempre se superando, a serem mais produtivos, a serem mais autossuficientes, mesmo que isso signifique negar a complexidade e a ambiguidade da vida humana. A busca por um caminho único – seja ele acadêmico ou empreendedor – pode, nesse sentido, ser vista como uma resposta a essa pressão para se "desempenhar" bem, criando uma falsa ideia de que há uma única fórmula para o sucesso.

    Em meio a essas várias pressões e visões contraditórias, é fundamental que cada pessoa tenha espaço para refletir sobre o que realmente deseja para sua vida, levando em consideração tanto as necessidades do mercado quanto seus próprios valores e aspirações. Ao invés de se deixar consumir por expectativas externas, a educação e a escolha de uma profissão deveriam ser, conforme Kant, uma forma de alcançar a autonomia, o autoconhecimento e a liberdade para decidir o que faz mais sentido para sua trajetória.


BARBOSA, Thaísa. A pressão da escolha acadêmica e profissional na sociedade contemporânea: reflexões sobre o sucesso, o empreendedorismo e o ensino tradicional. Fragmentos de um silêncio inquieto, 03 dez. 2024.

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